Somos pagos para administrar nossas empresas, equipes e projetos, e muito freqüentemente vemos o controle nos escapar. Procuramos causas dos muitos problemas que teimam em nos desafiar, e cada boa resposta revela-se, depois, uma armadilha. Na escola, ensinaram-nos a estudar os fenômenos a partir de relações causa-efeito, e saímos de lá raciocinando o mundo pelo diagrama de Ishikawa. Mas, vida afora, este raciocínio linear não é capaz de dizer por que é tão difícil colocar em seus devidos rumos as pessoas de nossas equipes, nossos projetos, o mercado, as nações, o planeta.

Leda Spinelli descobriu a resposta, naquela manhã nervosa, em sua sala de gerente de Responsabilidade Socioambiental da KLM. Ela terminou de ler rapidamente seus e-mails, girou a cadeira para sua mesa de trabalho e olhou o antigo relógio cuco que ela mesma comprara em uma loja de antiguidades. Instalado na parede e em harmonia cuidadosa com a decoração de seu escritório, o velho cuco apontava nove horas. Ela tinha ainda duas horas até o início da reunião, marcada para as onze. Conferiu as horas no relógio de pulso. Não que lhe faltasse confiança no cuco, mas por força mesmo de hábito.

Um documento de duzentas páginas sobre sua mesa de trabalho mereceria agora a sua atenção. Leda Spinelli olhou fixamente o relatório de avaliação de progresso do Programa Água Vida, que está sendo empreendido na comunidade do Buriti. Após alguns segundos fitando o relatório como em um desafio mútuo, ela estendeu a mão e o abriu.

Dona Leda começou a ler o relatório de forma seletiva. Estava concentrada nos gráficos quando seu celular chamou. Era seu neto Daniel, de seis anos, em prantos.

- Vovó, nosso Cateto morreu. Por que ele morreu, vovó?

Cateto era o cão de estimação da família, de quase 15 anos de idade. O neto estava inconsolável, e não adiantara muito prepará-lo quando Cateto adoeceu, dois dias atrás.

- Por que ele morreu, vovó? Por quê?

Dona Leda tentou explicar, com a doçura de avó, que o cão estava doente, velho e fraco. Mas suas palavras de conforto da avó não adiantaram muito. O neto soluçava. A avó tentou confortá-lo e, com o coração apertado, despediu-se. Respirou profundamente, sensibilizada pela dor do neto, e voltou a olhar o velho cuco na parede que, muito antes de Cateto nascer, já orientava os ritmos dos homens em seus fazeres e lazeres, em seus quereres e em seus temores. Quereres e temores que moviam os homens.

O projeto Água Vida ia bem, em suas frentes de tarefas. As obras de saneamento andavam em bom ritmo, há quatro meses. Os trabalhos de alfabetização, educação sanitária e ambiental atingiam resultados animadores. O projeto tinha o patrocínio financeiro e coordenação da KLM, e apoio de prefeitura e duas ONGs locais. Recursos financeiros não eram problemas. Recursos humanos também não. Quereres e temores, sim, eram desafios.

Na evolução do projeto, emergem fatos novos. As lideranças comunitárias reclamam que a presença dos operários incentiva a prostituição das meninas da comunidade. Trazidos de fora pela empreiteira contratada pela prefeitura, os operários também tinham seus quereres. Diversão, bebida, sexo. Vendiam-se mais cerveja e cachaça nos dois únicos bares do povoado. E nas portas e calçadas dos bares se faziam os encontros com as adolescentes. Dona Leda lembra-se de algumas delas em sala de aula, quando visitou a comunidade nas campanhas de educação ambiental e de higiene. Meninas jovens com a esperança a irradiar-se de seus olhos brilhantes, prontas para lançarem-se a conquistar a felicidade prometida. Felicidades prometidas que tomavam formas distintas, inesperadas, surpreendentes. Meninas que alternavam frustração e deslumbramento em seus quereres e temores, na medida em que buscavam suas felicidades. Por pouco valor se entregavam. Os temores em seus nãos, os quereres da carne em seu sim. Temores e quereres tornam relativos o muito e o pouco.

Outro fato novo é que a população do povoado do Buriti passou a ganhar novos moradores. Eles são de famílias que migram da Vila do Tingui, povoado mais distante que sofre os mesmos problemas crônicos do Buriti. O programa Água Vida despertou a atenção também de políticos, líderes comunitários e agentes de movimentos sociais. Alguns com expectativas e propósitos legítimos. Outros com interesses imediatos também.

Dona Leda recostou em sua cadeira pensando em como atender à reivindicação da comunidade escrita em negrito no relatório: coibir a prostituição e limitar as bebedeiras de final de tarde nos bares, e que costumam estender-se pelas noites. Isso lhe parecia caso de ordem pública, talvez de polícia, talvez de política. Mas a KLM deveria tomar posição, articulando, exigindo ou reivindicando.

O celular voltou a chamar. Era Ivete Silva, gerente do programa Água Vida, informando que um problema inesperado a reteve no Buriti, mas que chegaria a tempo para a reunião. Ivete adiantou mais alguns detalhes do estudo solicitado para a implantação da carcinicultura como alternativa de renda. Notícias pouco animadoras.

O celular voltou a chamar. Desta vez era o neto Daniel, e Dona Leda sentiu um aperto no coração. O neto ainda chorava do outro lado da linha. Entre choro e soluços, ele tentava falar.

- Vovó, meu pai disse que Cateto morreu porque ele estava doente – soluçou. – E que ele ficou doente porque existem umas bactérias que fazem a gente ficar doente.

- Sim, querido. A vida é assim mesmo. Quando se fica velho, fica-se mais fraco e as doenças atacam mais seriamente.

- Mas a gente deu remédio, vovó. O remédio não serve para fazer ficar bom?

- Mas nem sempre o remédio cura, meu filho.

- Quando eu crescer, vou ser médico – Daniel soluçava mais forte agora. – Vou inventar um remédio para curar todas as doenças.

Os olhos de Dona Leda alagaram-se com o propósito de vida de seu neto. Pensou no que devia dizer para confortar aquele coraçãozinho doído, quando a pergunta seguinte a fez perder a fala.

- Vovó, dá tempo de eu crescer e ser médico antes de você ficar muito velha?

Do outro lado da linha, a mãe de Daniel assumiu o telefone:

- Mãe, bom dia. Fui avisada e acabei de voltar do escritório. Pode deixar que eu converso com ele.

Dona Leda levantou-se e caminhou até a grande mesa de reunião, que ocupava a maior parte do espaço de sua sala de trabalho. Colocou o relatório sobre a mesa e tentou retornar-lhe a atenção. Repassou mentalmente as reivindicações originais que fizeram nascer o programa Água Vida. Recuperação do Manguezal do Buriti, que estava em acelerada degradação; melhoria das condições de vida no povoado do Buriti, com ações dirigidas às condições sanitárias, à educação e à geração de renda. Não parecia difícil.

Mas ao começar as intervenções necessárias, coisas vão surgindo, revelando aprendizados e descobertas. Madura, Dona Leda sabia de muito do que aconteceria, e tentou alertar as pessoas dos limites de seus poderes em controlar sistemas sociais e ambientais. Mas as pessoas parecem escutar apenas aquilo que se encaixa em suas expectativas. São movidas por seus propósitos em seus sonhos, seus projetos, suas alegrias e suas frustrações. Saem vida afora tentando governar suas empresas, suas cidades e seus países. Elas acreditam ter o poder de controlar e, tentando controlar, se desgovernam.

No anexo do relatório, o estudo sobre a viabilidade da carcinicultura como alternativa de renda era desaconselhada pelos especialistas consultados. Diziam que a quantidade de camarões cultivados, para justificar atividade econômica, sem afetar o manguezal e ainda permitir a recuperação de seu estado já muito degradado, precisaria de uma área infinitamente maior que a disponível. O último parágrafo chamou sua atenção: “A inserção de uma espécie exótica, mesmo que em cativeiro, pode desencadear no ambiente um desequilíbrio difícil de calcular. Cada espécie tem seu propósito no equilíbrio de um ecossistema. Cada espécie que vive, vive em função de justificar a sua existência”. Dona Leda voltou os olhos para a palavra “propósito” e se lembrou, com ternura, do novo propósito de vida de seu neto. O manguezal também tem seus propósitos. E tem, possivelmente, seus quereres e seus temores.

Voltando várias páginas, Leda Spinelli retorna aos problemas da comunidade com suas adolescentes e os operários das obras. Há três semanas, os líderes comunitários pressionaram os donos dos bares e proibiram a presença das meninas naqueles estabelecimentos, onde se davam os encontros. Advertiram-nos de que estavam sendo coniventes com a prostituição infantil. As autoridades foram alertadas e a polícia estaria atenta. Mas a experiência de Dona Leda lhe dizia que o problema estava longe de ser resolvido.

De fato, continuando a leitura, o relatório descreve o que aconteceu nas duas semanas seguintes à proibição. Como era de se prever, os encontros passaram a ocorrer às escondidas. Com isso, cresceu o número de meninas que se dispunham ao programa, agora protegidas pelos segredos compartilhados. Seus quereres e temores. Temores removidos, quereres fortalecidos.

O celular voltou a chamar. De novo, era Daniel. Agora ele já não chorava, embora sua voz ainda estivesse triste.

- Vovó, já sei por que Cateto morreu.

- Então me diga, meu filho, por que ele morreu.

- Vovó, ele precisava devolver à natureza as coisas que ele tomou emprestado pela comida e água que ele usou durante sua vida. Se ele não devolvesse, se os animais e plantas não devolverem, as outras plantas e os outros animais morreriam de fome. Ele foi para o céu dos cachorros e o corpo dele vai ser devolvido aos…

Pausa. Dona Leda pode ouvir Daniel consultando a mãe. Depois de esclarecimentos, volta a falar:

- Carbono, nitrogênio, amônia… Tudo isso vai alimentar as plantas e depois outros animais… Mas depois volta tudo de novo. Mas eu ainda estou triste, vovó – e a voz denunciou ameaça de choro. – Mas está certo, porque outras plantas e animais precisam das coisas da natureza que ele tomou emprestado dos outros animaizinhos e plantas que ele comeu.

Dona Leda conversou um pouco mais, e sentiu um alívio confortável por seu neto. Despediu-se e pousou o celular na mesa com cuidado, como se o neto estivesse dentro daquele aparelho.

O que Daniel queria e que a avó e o pai não souberam dar, mas que a mãe compreendeu, era uma explicação de propósito. Para quê morreu o cachorro. Não por causa de doenças, não porque estava velho… O propósito aliviou seu neto.

- Propósitos são poderosos – o pensamento saiu em palavras, falando de si para si.

As meninas do Buriti são movidas por propósitos que elas mesmas desconhecem. Proibições não podem conter a força soberana dos propósitos. Aqueles homens ofereciam mais do que algum dinheiro que aliviaria necessidades de sobrevivência. Eles traziam portas nas fronteiras da vida. Ofereciam a conquista biológica de ser mulher, de serem aceitas e cobiçadas como mulher, meninas movidas pela força invisível da maternidade latente. O propósito soberano da vida em explorar, descobrir, sobreviver e perpetuar.

Propósitos movem a humanidade, e parecem mover também camarões, caranguejos, plantas e manguezal. Por que estamos buscando controlar homens e manguezal, se seus propósitos são soberanos? Como negociar propósitos para promover a harmonia possível, e permitir que os quereres e temores façam a maior parte do trabalho? Se há harmonia possível, ela pode ser construída sob controle?

Dona Leda olhou as horas no relógio cuco de madeira escura e brilhante, cuidadosamente talhado por um artesão cujo propósito era transformar madeira em arte. Dez e quarenta. Foi até a porta de sua sala e pediu a Lia, sua secretaria, que providenciasse água e café para os convidados que deveriam chegar nos próximos vinte minutos.

Ivete Silva foi a primeira, na hora marcada. Depois dos cumprimentos, Ivete sentou-se diante de Dona Leda e, sem tirar os olhos do relatório sobre a mesa, comentou:

- Vamos ter outra daquelas reuniões difíceis, Dona Leda. Ainda bem que temos você e sua enorme sabedoria.

Leda Spinelli piscou-lhe um olho, e respondeu sorrindo:

- Tive uma conversa com meu neto. Ele me deu uma dica muito esclarecedora que, tenho certeza, vai nos ajudar muito.


Nota:


Um comentário para “Pessoas, organizações, manguezais… Há controle possível?”

  1. Rogério Vianna comenta:

    Gilberto:

    Gostei muito do seu texto e da sua abordagem da luta permanente entre os “temores e os quereres”.

    Como o fator humano necessariamente está inserido em qualquer projeto, é realmente uma ilusão poder controlá-lo segundo os manuais, as relações causas e efeitos e tantas outras tentativas que não levam em conta toda a complexidade do ser humano, seus temores e quereres (gostei do casamento que você fez desses dois sentimentos).

    Realmente os propósitos são poderosos e identificá-los é um bom começo para entender esse emaranhado de emoções que um ser humanos tem dentro de sí. Multiplique o emaranhado individual pelo coletivo e teremos uma pálida idéia de que “balaio de gato” está metido quem tem a ilusão de controle.

    Um forte abraço,
    Rogério Vianna

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